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um amor atrevido

um amor atrevido

Agosto 21, 2009

l'invention de l'amour

Vieira do Mar

Sigo o teu nome por estradas velhas, persigo-te assim, por caminhos antigos e traiçoeiros, saltando-te pedra a pedra, a querer aparecer-te à porta, ao portão, a esperar-te escondida com o azedume do assédio a fervilhar dentro de mim. Quero agarrar-te a cara com as mãos, à tua saída, e fixar-te as feições espantadas, o olhar surpreso, o maxilar rígido e desconfiado. Sigo-te à tua morada, entreteço em mim tudo o que de ti sei, corro atrás de ti com a curiosidade de uma criança com o seu franzir de sobrolho, indagante, sempre a virar as esquinas atrás de balões e de seres etéreos. Guardo de ti tão pouco: um amor que não conheço arrastado pelo chão da minha casa, sabedorias incompletas e uma ternura brevemente derramada numa madrugada qualquer, soprada como um segredo. Sinto-te, que queres?, como se me respirasses aqui e agora para o ouvido e isto são coisas que a ciência não explica. Mas sigo-te sem fé, aos ressaltos e renitente, como esse gaguejo subtil que te trai quando te preparas para me dizer a verdade e que eu ao princípio confundia com um defeito da ligação, que parecia prolongar-te as sílabas no ar. Tens qualquer coisa de sino de igreja que avisa, que insiste e não perdoa, mas que ao mesmo tempo redime. E uma violência feroz que às vezes te escorrega pelas palavras, sem dares conta, porque o que mais queres é ser meigo. E eu, olha, eu a dar o teu nome a este documento de texto e a pôr em baixo a tua fotografia, se a tivesse. E então ninguém te poderia confundir com um filme, com um argumento inventado por outros. Tu és um caminho; um caminho por onde vago à toa, acossada pela posse e pelo vazio, sem final feliz à espreita. Mas também és uma espécie de verdade, uma verdade não comprovada que me rasa a pele e me amarga os sonhos, e por isso hoje não finjo que esta estória não nos pertence.

Agosto 13, 2009

edward scissors hands

Vieira do Mar

O mais estranho, é que gosto mesmo de ti. Gosto moderadamente dos amigos e tolero os colegas, a porteira, a empregada e o antunes do supermercado. Mas de ti, gosto mesmo. A tua lembrança é um prazer que desliza, surripiando-me; chegas de repente, agradável como uma brisa quente ou uma boa notícia, e eu imagino-nos cenários, não amorosos nem eróticos, mas, antes, de circunstância: encontros fortuitos, casuais, um pequeno-almoço, um relance de carro, um telefonema, uma gargalhada, um encontro de pulsos, de tornozelos. Faço-o sem qualquer expectativa romântica ou intuito amistoso: és menos do que um amante e mais do que um amigo. Não que me sejas mais próximo ou íntimo, porque não o és, mas porque, mesmo longínquo, me exaltas e entreténs, ocupando o meu espírito movediço e centrando-o, como a perspectiva de ir de férias ou de casar amanhã. Não me iludo, não é disso que se trata: apenas te construo em mim, uma e outra vez, como uma primeira dentada antecipando a gula, lenta e deliberada. Nunca o esmaecer do teu rosto me angustia, antes, enleva-me e inspira-me, soalheiro. Há momentos em que te conduzo para sítios bonitos de cartaz, como jardins secretos e praias desertas, e onde te vejo ao meu lado como se estivesses mesmo. Ali, entabulo conversas, contradigo-te e acotovelo-te, deixando que me faças cócegas e me olhes longamente, como os casais nas fotografias. Encontro-te no estame de uma flor, na caruma dos pinheiros e na linha do horizonte: basta-me olhar com atenção. E cheiras sempre bem: uma mistura de pólenes, resinas e maresias, da qual sobressai o travo adocicado do desejo, quieto como as nuvens mais altas. Acima de tudo, enterneces-me. E é esta perenidade mansa, que não reconhece o escavar do tempo, que não pede retorno e se basta em si mesma, que às vezes me inquieta e assusta, nem sei bem porquê.

Agosto 05, 2009

the crying game

Vieira do Mar

Pensei, sinceramente pensei, que fosses tu. Que os teus tolos desmandos aniquilassem a inconsciente superficialidade dos meus; que a tua loucura subjugasse a minha e eu conseguisse por fim dormir à noite com a cabeça no teu colo, ou num colo qualquer, desde que num arremedo de paz. Pensei que fosses tu, o princípe encantado por mim, prestes a enfrentar os meus dragões, que entrasse de espada em punho pelas masmorras onde me escondo e definho, desde sempre à tua espera, (sei-o agora, perante a inevitabilidade dos teus olhos em fogo, doentes de determinação). Que me resgatasses do cansaço que é não pertencer a lado nenhum. Pensei-te por momentos uma espécie de lar, um porto de abrigo, o regresso, a volta a casa. Que apenas me olhasses e que exigisses perante os teus pares amares-me contra todas as expectativas, todos os mapas astrais e as cartas do tarot que adivinham tragédias. Pensei que chegasses, que não perdesses tempo com rodeios nem mal entendidos e que nos mareássemos no rodopio inebriante da descoberta do amor: aquele amor salvífico que nos devolve o fogo de artifício e que nos abre os poros. Por momentos foste tu, a passar no crivo solitário das minhas noites e senti medo, frio na barriga e as pernas bambas; porque eu a saber-te lobo a quereres-me comer e a temperar-me a jeito para te saber melhor. Mas não foste mais do que a promessa de uma promessa, o beijo que não me queimou a boca, as mãos que não me empurraram contra a parede; foste só uma voz do outro lado da cidade, do mundo, que se atabalhoava na linguagem confusa e desconfortável que o amor às vezes escolhe para nos comunicar que não pode ser, que temos pena mas não é chegado o momento e que, como nas escondidas da nossa infância e quando quem está no coito chega lá primeiro, ninguém salva ninguém. Por momentos pensei, mas na verdade, ninguém salva ninguém .