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sommaren med monika

04.11.08

Dantes era mais giro, quando o teu Amor me vinha por telepatia, por intuição, por sinais de fumo ou por código morse; dantes, quando eras o excesso que se continha na parcimónia do gesto e o vértice da esquina de uma promessa; quando eras um estado de espírito, uma fragrância e um eflúvio, uma maneira de me deitar e outra de acordar. Agora dividimos as despesas, compramos pacotes de férias, declaramos juntos os impostos, eu chego a casa e tu estás lá. Agora já sei, como te irritam os arrumadores, onde guardas o corta-unhas e qual o montante exacto da gorjeta que deixas na mesa do café; e sei do cansaço impaciente de quando te deitas, virado de costas para mim na urgência sôfrega do sono. Dantes era mais giro, quando deixávamos um lastro sujo pelos quartos emprestados, empestados de nós; agora queres tudo limpo, que os lençóis não se amarfanhem e que os guardanapos, nem uma nódoa (às vezes, quando ressonas e sibilas agarrado às fronhas alvas, é como se me perseguisse uma matilha de cães selvagens). Dantes era mais giro, quando tinha a certeza de que me farias um filho, um menino jesus, um indigo, um sobredotado, um milagre: o corolário inevitável da temperança do Amor. Hoje é o pânico, se me esqueço da pílula, se faço mal as contas ou se não interrompemos a tempo a sensaboria morna de um coito esporádico. Dantes era mais giro, quando me eras proibido e eu te imaginava despido nas minhas mãos, afrouxando-te com os dedos o elástico dos calções de seda; agora, apanho-tos do chão junto com as meias e as termotebes, enquanto salmodias à minha volta sobre as traições no emprego e o cabrão do aníbal que te roubou o projecto. Agora, eu vejo a novela e tu despejas o lixo, eu perco a paciência e tu a vontade, eu no computador a trocar galhardetes com urbanos desconhecidos e tu a fumares cigarrilhas na varanda, inclinando-te na balaustrada de ferro forjado, descascando distraidamente o primário com a ponta dos dedos enquanto imaginas corpos nus de mulheres a irromperem como espirais de fumo pelos telhados embreados que sustentam a noite da cidade velha.

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escrito por sofia vieira às 19:19



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