Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



the postman always rings twice

19.01.09

Perguntas-me se quero boleia e convidas-me a entrar. Sento-me ao teu lado e vem-me um cheiro a pinho e ao teu peito agitado e húmido (como sempre quando me antecipas). Cerro as pernas e cruzo piamente as mãos antes que se me escapem para a tua braguilha de ganga engelhada, a roçar no volante a cada vez que o viras. Inclinas-te para o meio e para mim, escolhes um posto de rádio, não há nada de jeito, e é cada vez menos o cheiro do pinho brise natureza eficaz por seis semanas e cada vez mais o cheiro do teu peito que escorre abarbelado pelo desejo, eficaz a vida inteira, não precisa de recargas. Chegamos à minha rua e insinuas-te, é só um copo de água. Exulto, mas faço que me resigno. Sigo à frente e meto a chave à porta, querendo inclinar-me logo ali e agarrar com as mãos nervosas o degrau sujo da entrada para que me comas de quatro, enquanto os vizinhos espreitam de coração acelerado por detrás dos vidros duplos. Entro em casa direita e digna, como se também eu não escorresse toda, como se o rio oleoso do desejo não ameaçasse encharcar-me a compostura, tenho de ir à casa de banho. Tu manténs-te cá fora, limpando os pés no tapete puído, falando alto com deliberação e parecendo quase lídima, a tua presença ali. O gato recebe-nos satisfeito, mas recolhe-se desagradado ao perceber que comigo vem um estranho, não o dono. Na sombra, os penates agitam-se. Tiras devagar o casaco e pendura-lo no cabide indonésio grosseiramente carvado, num ritual provocatório. Olho para o lado enquanto o despes, resistindo a rasgar-to do corpo com a fúria das górgonas e corro para a cozinha. Vens logo atrás. Dou-te à pressa o copo de água, acabaste de chegar do deserto e estás com pressa de voltar, mas nem lhe tocas; antes, encurralas-me contra a mesa posta para o pequeno-almoço, as duas chávenas coloridas no centro dos dois individuais e no meio os frascos com o doce de gila e a compota de maçã, a favorita dele. À sua lembrança, consigo até sorrir-te como se não estivesse a morrer e tento encaminhar-te para a saída com a firmeza gentil de um cão-guia, mas tu agarras-me pelos ombros e deitas-me na mesa sem fazeres qualquer esforço, embora pareça que sim. Entramos então em guerra, numa pegadilha de bocas e pernas, de mãos e línguas e unhas. Demoras-te de modo insuportável antes de entrares em mim, queres que suplique embora saibas que isso nunca acontece: não preciso. Abres o frasco que rola pelo bordo da mesa e espalhas com dois dos teus dedos a compota favorita dele na minha barriga. Lambes-me o umbigo com gula e eu penso que nunca houveramos feito nada de tão cruel - nem nos seminários inventados, nem nos motéis suburbanos a meio da tarde. Abafo um grito quando me entras e esbracejo – não sei se de pânico se de gozo - e as chávenas caem por fim, espalhando pedaços coloridos de porcelana barata no mosaico preto. A velha do andar de baixo, que está cega mas não é surda, pensa que foi o gato, que às vezes a espreita do beirado, e sorri. Entretanto, eu recuso-te, enquanto me abro e palpito: sou uma flor carnívora em olímpica amplitude. Venho-me de olhos fechados, a gritar não e a afastar-te do meu corpo, prefiro abraçar uma mesa. Sempre assim, é sempre assim: tu a demorares-te na entrada e a demorares-te a entrar em mim, a fazeres com que eu grite e com que os vizinhos nos ouçam, as partires as minhas chávenas e a estilhaçares-me o quotidiano. E eu a fingir que não quero, que és tu que me obrigas, que ele prefere o doce de gila e que o barulho foi o gato.

Autoria e outros dados (tags, etc)

escrito por sofia vieira às 19:29



Um blogue de Sofia Vieira

Reservad@s todos os Direitos de Autor. O conteúdo deste blogue encontra-se registado no IGAC, sendo proibida a sua reprodução sem autorização e/ou menção da proveniência e autoria.

Image Hosting by PictureTrail.com
"No, I don’t think I will kiss you, although you need kissing, badly. That’s what’s wrong with you. You should be kissed and often, and by someone who knows how." Image Hosting by PictureTrail.com "I hate you so much I think I´m going to die from it."

Image Hosting by PictureTrail.com
“Love is too weak a word for what I feel — I luuurve you, you know, I loave you, I luff you, two F’s, yes I have to invent, of course I do, don’t you think I do?”

Image Hosting by PictureTrail.com
"I'll Have What She's Having."

Image Hosting by PictureTrail.com
"- You´ve ruined my life. - You´ll get over it."

Pesquisar

  Pesquisar no Blog


"Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento" Adélia Prado