Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



the witches of eastwick

13.06.10

Foi ela, que eu sei (foi ela). Que te lançou feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilha no pescoço, as rezas ao pai de santo e os serviços encomendados. Foi ela, que se banhou em águas turvas, segregou fluidos biliosos e depois tos deu a beber, entrada à força dentro de ti, coitado, que não tens culpa (que não sabes o que fazes). É certo que andávamos a despistar o branco das paredes da casa com o negro do nosso silêncio, como polvos assustados, mas foi ela e não tu, com as suas saias curtas, os trejeitos ordinários e aquelas raízes escuras que fogem ao descolorante barato, blonde claire número oito (que eu sei). Pois se até nem estávamos mal, tu à larga na cama vazia, eu à vontade no sofá da sala; pois se até te sentias mais livre, instalado no meu desinteresse pelas tuas passeatas tardias; e se eu, aliviada, por já nem dares pela gula do Carlos debruçada no meu decote quando cá vinha ver a bola. Foi ela, que te tirou do sério e te virou do avesso, que quase renegas os teus filhos. Tu que nunca lhes faltaste com nada, embora de dia fosse o trabalho e à noite, o computador; embora aos sábados de manhã, o ginásio, à tarde, os beberetes, e aos domingos, o futebol. E agora, o tribunal, os descontos no vencimento, a nossa casa em nome dela, que eu sei (foi ela). Que te viciou no seu sexo tépido perfumado de temperos exóticos, coitado, que não tens culpa, do prazer a que ela te obriga, do gozo que à força te impõe. Ela a zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos, a ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, a coser-te a boca com o veneno de promessas e os seus beijos peçonhentos. Ela, que te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou esse coração que dantes batia por mim. E eu, que nem acredito nessas coisas, que sou de estudos e não de crenças, racionalista positivista epistemológica matemática; eu que passo por baixo de escadas, que durmo com gatos pretos e me vejo partida nos espelhos partidos, sei que foi ela e não tu (coitado), que não tens culpa (coitado), que não sabes o que fazes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

escrito por sofia vieira às 22:08



Um blogue de Sofia Vieira

Reservad@s todos os Direitos de Autor. O conteúdo deste blogue encontra-se registado no IGAC, sendo proibida a sua reprodução sem autorização e/ou menção da proveniência e autoria.

Image Hosting by PictureTrail.com
"No, I don’t think I will kiss you, although you need kissing, badly. That’s what’s wrong with you. You should be kissed and often, and by someone who knows how." Image Hosting by PictureTrail.com "I hate you so much I think I´m going to die from it."

Image Hosting by PictureTrail.com
“Love is too weak a word for what I feel — I luuurve you, you know, I loave you, I luff you, two F’s, yes I have to invent, of course I do, don’t you think I do?”

Image Hosting by PictureTrail.com
"I'll Have What She's Having."

Image Hosting by PictureTrail.com
"- You´ve ruined my life. - You´ll get over it."

Pesquisar

  Pesquisar no Blog


"Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento" Adélia Prado