Abril 10, 2006
the end of the affair
Vieira do Mar
E, então, toma-me de assalto aquela imagem budista de que a vida é como um rio, que quando passa não mais se repete, pois nada fica nunca no mesmo lugar. Depois da enxurrada, já se sabe, as coisas não voltam à harmonia da sua quietude anterior, por mais que se aprestem os trabalhos de reconstrução e chegue o voluntariado da ajuda internacional, assentando arraiais e montando tendas pelas nossas planícies adentro. É claro que, para quem já vivia de escolhos e se mantinha à tona numa babugem feita de bocados podres de madeira e cascalho e materiais orgânicos flutuantes e perecíveis, a esbarrarem contra os diques que tanto custaram a erguer, a diferença é pouca: é quase a ilusão de que nada nadinha mudou. Mas, para quem espreitava, agradado, da entrada acolhedora da sua palafita e lhe topa agora as estacas (antes sulcadas no fundo lacustre, ricamente adornadas com anos de coisas felizes) algures à deriva contra o molhe de betão, fica mais difícil, essa coisa de encarar os destroços, mesmo que apenas através das palavras escritas e das fotografias desmaiadas, guardadas em arquivo. Preciso por isso de uma empilhadora dentro de mim, daquelas com várias pás que cheguem alternadamente aos recantos mais difíceis da minha geomorfologia magoada. Pago bem e à hora.