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24.05.18

 

Querida, coitada. Calhou-te a versão desactualizada, o upgrade que nunca foi feito, um composto de partes gastas, uma função mecânica carente de vida. Tu não o tiveste inexperiente e moldável, pulsante, vulnerável e obsceno, provinciano e altivo, romântico, miúdo, intacto. Sobrou-te um simulacro de marido, um arremedo de progenitor, um repetente na disciplina da família, vamos tentar outra vez, conformado e envelhecido, corroído pelos detritos do passado. Querida, nunca o soubeste incrédulo, pai pela primeira vez, o olhar de medo e espanto, quando tudo nos era ainda possível. Nunca lhe sentirás a frescura de outros carnavais, tem-lo em segunda mão, amputado emocional, amealhador, amargo, um esgar forçado onde antes esvoaçavam sorrisos, esmagado pelos erros da idade adulta. Foste uma segunda escolha, e embora te vejas uma segunda oportunidade, não passas da peneira com que tapou o céu. Nunca lhe sentiste o bafo desesperado da paixão, mas apenas o encosto da conveniência; não sabes do que a casa gasta, não lhe conheces a crueldade nata, embora partilhem a malícia e engendrem planos lunáticos de guerra no vosso covil secreto. Essa cumplicidade que partilham assenta primordialmente no ódio aos inimigos que inventaram. Não tens na tua posse o seu corpo pálido e imberbe, abandonado às noites alcantiladas e orgíacas da juventude. Querida, coitada, nunca lhe conhecerás a inocência feroz de quem teve um dia a certeza do cumprimento de todos os sonhos; resta-te uma espécie de cadáver esquisito, uma alma de pontas soltas, sem sentido nem propósito, que se tenta reinventar colando os princípios aos fins, sem saber da palavra a seguir, um estrangeiro na tua cama. Arremataste-o sôfrega; ele, que renegou proteger quem devia, o que te deleita porque te sentes única na providência das suas atenções, mas que também te horroriza, porque pode voltar a fazê-lo, basta-lhe atingir a soma certa de desagrados. Eu hoje sou ódio, sabes, mas já lhe fui estrépito, surpresa, morteiros e andorinhas nos beirais; tu és mera reacção vagal, és o encosto possível, és a que se prestou à companhia de quem que não quer estar em casa sozinho para que a saudade e a consciência não lhe gritem aos ouvidos. Querida, eu fui necessária, tu és instrumental: serves o propósito de lhe abafar o ruído da perda, mas mais vale isso que nada, pensas. Eu escolhi não o ter mais, por tudo o que dele sei; tu escolheste ficar com ele, por nada do que dele sabes. Coitada.

 

Scenes from a Marriage.png                                                         (scenes from a marriage)

 

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escrito por sofia vieira às 22:33



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