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03.09.18

 

 

 

A desilusão é tramada, corta amores como facas e estraçalha a empatia que nos assiste para com os que nos são queridos, os nossos imperfeitos queridos. É um não retorno para o encantamento, uma conclusão amarga de precisão matemática. Pior do que o ódio, a auto comiseração, a raiva ou o desejo de agredir. Porque tem consequências, enquanto o resto é volátil: vai-te foder vai tu, e, no dia seguinte, o que queres para o almoço. A desilusão é o reverso de uma epifania: num repente, em vez da luz, há uma escuridão que paira, e que sucede a incredulidade. É irreversível como o rolar daquele seixo rio abaixo, nunca mais onde antes esteve; ali quieto, naquele recesso da corrente, à esquerda, onde só refracta a luz ao poente, a prender aquelas algas de talos verdes que em breve dançarão livres, quando se for. Nunca mais o sol lhe baterá às cinco da tarde naquele ângulo exacto e que segundos antes lhe iluminava a parte há muito lascada, de arestas arredondadas por milhares de anos de carícias aquáticas. É outra pedra, outro rio. É outra vida. Uma merda, esta pedra que muda de sítio, este nunca mais o que foi; o não poder desver, desouvir, dessentir. Não é o que se fez, é que não se pode desfazer. O rolar da pedra para uma nova e temporária morada, pode ser insignificante para o curso do rio, mesmo que o volte a subir, por força de um qualquer mistério do universo, como os salmões na desova. Não é a abrangência da correnteza que nos muda, não é a soma das manifestações do outro, furibundas, ofegantes, silenciosas, arrogantes, teimosas, ardilosas e infantis que fazem o todo. Porque isso nós conhecemos e aceitamos, sabemos ao que fomos, o amor é exímio em minimizar o que não presta. É a puta daquela minúscula pedra, a harmonia que de repente se desfaz num colapso infinitesimal. É contemplarmos alguém que amamos e que afinal não sabemos quem é, que se transforma, que desmantela a sua persona à nossa frente, gesto por gesto. Desilusão é sentir que fomos ao engano, é estranheza e confusão, tristeza e desconforto; é a vontade de arrepiar caminho, imediatamente. Ao contrário do que se diz, não é proporcional à grandeza das expectativas: sentimo-la quando já não existem expectativas, quando achamos que temos a certeza do outro, quando o aceitamos como um todo, uma soma de bondades, egoísmos e idiossincrasias, que fazem parte do pacote, da nossa visão abrangente do rio. É sermos confrontados por algo que diverge no fundamental daquilo que achamos ser o nosso absoluto conhecimento do cerne de aguém. É a ternura que nos falta depois da desavença, a corrupção das memórias queridas; é um lugar solitário onde o arrependimento é inútil e a pena, um encolher de ombros. Um sítio frio e inóspito onde ecoam em vão as desculpas e as emendas nunca feitas. Os antigos escondiam os desapontamentos no sotão, a descendência aleijada e imperfeita, para que nunca tivessem que os ver ou saber. As reacções de quem se sente desiludido são quase sempre moralmente reprováveis ou parcas em educação, como empurrar a comida para a borda do prato e escondê-la debaixo da folha de alface. São vistas como incapacidade de perdão, teimosia, inclemência, vitimização, ou simples orgulho, tolo como todos os orgulhos. Mas o que acontece em nós é só a aceitação inevitável do fim e uma forma de economizar: as palavras que vierem a seguir ao que foi dito e feito estarão sempre a mais, mais vale calá-las. O desiludido é fonas e poupadinho, acha que gastou demais e em vão.  É um adeus súbito e talvez inesperado da perspectiva de quem nos desilude, mas que para nós já vem tarde pois este novo outro, que agora nos foi mostrado, afinal, não passa de um estranho. Um estranho aleijado, que nos magoou, que nos deixou sozinhos a lamber as feridas que inflingiu, que incomoda, que agora olhamos de cima porque nos achamos melhores (não somos). Que nos apetece trancar no sotão. Se não num daqueles vitorianos, ao menos num recanto poeirento da nossa mente, até nos esquecermos de que um dia existiu e nos feriu de tal forma, que mudou para sempre os nossos rios e afluentes. Os desiludidos são os mais egoístas dos sofredores; terão sempre o outro a quem culpar pelo súbito desapego emocional, sublimando assim o seu desejo inconsciente de retribuição. Porque todas as histórias de amor são também de vingança.

 

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                                               (the disappointments room)

  

 

 

 

 

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escrito por sofia vieira às 21:57



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