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22
Fev19

...

por Vieira do Mar

Detesto-te sempre com prazo de validade. Um prazo quase tão preciso quanto o ponto de um funcionário zeloso. Tenho um mês, dois vá, para que não me existas ou para fazer-te objecto de escárnio e troça. Tudo em mim é genuíno e é isso que torna ainda mais estranho este sentimento ampulheta, que me permite ignorar-te a prazo, desintoxicar-me dos teus extremos, do teu drama, da tua maneira enviesada e teatral de olhar as coisas. Irritas-me a um ponto que a única solução é esquecer-te, o que faço sem esforço. A princípio sinto-me livre, leve, contente e desanuviada; o meu único engano é achar que é para sempre, que desta vez nunca mais. Devia saber melhor, porque há anos que te esqueço e depois te preciso, num loop temporal digno de uma série daquelas tão na moda. Não que eu ande a contar os dias. O meu precisar é uma insídia, de que mal me dou conta. Uns minutos nos primeiros dias, depois uma hora ou duas a lembrar- te nos seguintes. A seguir, o purgar. Das coisas que me disseste, de quando me tiraste do sério, do quanto levei a mal e da urgência que senti em te ver pelas costas por tempo indeterminado. Tarda nada, e tudo volta a ser Bom em ti. Dizem-me que é dos teus mimos que sinto falta, que isto não é amor. Há de ser qualquer coisa porque aos mimos rejeito-os sem tacto, e desprezo num tom jocoso a tua fervorosa dedicação, a não ser que esteja doente e precise que vás à farmácia. Repugna-me o teu amor obsequioso e a tua tímida bajulação: não é por aí que me sobe a estima nem a opinião que tenho de mim. Antes pelo contrário, ages através do filtro da devoção que me tens e os teus actos nada contêm de verdade, são apenas um meio para um fim no qual, apesar do teu desencanto, teimas em ter fé. Falas-me baixinho, como se a medo, para não contrariares a doida que te calhou amar, finges-te emasculado e submetes-te aos meus caprichos, porque sabes que é a única forma de nos equilibrarmos no arame por mais umas horas, antes de nos esbardalharmos cá em baixo num qualquer desacordo fútil que acaba em tragédia. É no que dá, gesticular demais quando estamos lá em cima. E vai então que regressas à minha vida sem saberes. Não lhe chamaria saudade porque ver-te não me acalma nem me adoça. Os nossos reencontros são frios e anódinos como meros conhecidos que se devem algo; não tenho vontade de te tocar nem de aprofundar o que nos separou e agora nos junta. Às vezes, evito olhar-te como se tivesse vergonha de não querer mais, e eu nunca tenho vergonha de nada. Mas quando bate o ponto, preciso de ti como de pão para a boca; depois, quando te vejo, fico sem fome. Nem precisas de fazer algo, basta a tua ânsia infantil de estar comigo e o paradoxo de saberes que isto nunca dará em nada. E as tuas desagradáveis implosões perante esse fardo que carregas há anos, admito. Não sei o que me prende nem o que me afasta; sei que é como um passo de dança desastrado entre os dois, numa mímica descoordenada, que acaba inevitavelmente com cada um a sair por lados opostos do palco, obrigada, obrigada, adeus até à próxima. Só sei que isto cresce, o que quer que seja que me prende a ti quando reconheço que és. E a cada dia que passa, existes mais e mais, tomas forma como uma escultura nas mãos de um mestre, primeiro um calhau na paisagem, depois uma pessoa, a ganhar forma com o cinzel que te esculpe na minha cabeça. E então preciso chegar a ti, seja de que forma for. Nasce-me uma inquietação e uma ânsia de pertença, e é como se nunca tivesses deixado de ser importante, uma parte fundamental do meu mundo esquizofrénico e prepotente, que mata e ressuscita e ouve vozes. Sei que não percebes nada disto; nem se te o traduzisse em equações matemáticas, muito menos se apelasse à tua parca inteligência emocional, mas também não importa. Não tenho especiais interesses nem me movem desígnios óbvios, o meu rio não corre para o teu mar, mas em certos meses até parece que te amo; porque são meses ímpares, porque que calham entre os nós dos dedos, porque têm um erre no nome e podemos comer marisco: sei lá eu dos meus intercalares amorosos. Por isso declaro aqui formalmente que irei encurralar-te uma vez mais na minha temporária e extemporânea fantasia. Porque, meu querido odiado querido, quando a menina quer, a menina tem. Mesmo que seja para ter o que não quer.

                                                            

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