Abril 14, 2006
breakfast at tiffany´s
Vieira do Mar
Estranho, como a fotografia não desbotou nem um bocadinho, assim não imitando a vida. Lá estamos os dois, muito novos, de olheiras tão cavadas e fundas que nem a maquilhadora de serviço conseguira disfarçar, os sorrisos meio abertos, uma das pernas de cada um ligeiramente à frente e de lado para realçar o efeito fotográfico e assim permitir o encosto desvelado dos nossos parietais, a pose estática, numa mudez quase assustada e que os outros quereriam agradecida e expectante. O meu vestido rodado e a jaqueta curta tipo Chanel, numa seda selvagem muito leve, como leves não eram as nossas olheiras cavadas e fundas, debruadas a noites de amor e de contas à vida em claro, as pérolas da avó ao pescoço. Tu, demasiado à solta dentro de um fato demasiado largo, que parecia alugado mas não era, que era quase fantasia de Carnaval, de tal forma te caía, inopinado. Os dois, mascarados que estávamos: eu, de princesa, uma audrey hepburn de bairro, bonitinha e apresentável, mas sem a classe nem a ossatura perfeita, e tu, de palhaço rico; ambos num malabarismo circense às voltas com as bolas coloridas do presente e do futuro, ai que ainda nos caem no chão, vê lá se não perdes o equilíbrio, agarra-me, por favor. Eu, a acabar a noite descalça e enfiada à pressa no meu fato de saída, coisa de bom corte, grife italiana, a querer que me chegasses e mo desenfiasses e toda a gente se fosse embora para me aqueceres, entre as tuas pernas, os pés frios, gelados, do chão de pedra do palacete emprestado. Onde começámos um dia a fingir que já éramos crescidos.