Abril 17, 2006
vertigo
Vieira do Mar
Subíamos a arriba descalços, a lua já a boiar no céu, a tactearmos com a planta dos pés os resvalos do caminho, a picarmo-nos nas arestas dos seixos em fóssil, deixados a descoberto pela invernia. O cansaço do dia a invadir-nos e ainda a subida ia a meio. Eu, colada atrás de ti, como sempre, a minha cabeça por entre os teus glúteos, que me iam mostrando onde pisar. Sempre me indicaste o caminho a seguir, ainda hoje o fazes: mesmo quando sou eu que te dou ordens e berro e esbracejo que nem um polícia sinaleiro ou um arrumador na ressaca, daqueles que insistem sofregamente para que estaciones no lugar vago que é a sua concessão de vida. De repente, uns mirrados segundos em que me esqueci de que os teus glúteos se engalanavam de força bem na frente do meu nariz, empinado contra o vento, curioso, a tactear um ar diferente (porquê? não sei, talvez pela distracção infíma de não me teres agarrado o cotovelo, no momento em que olhei para baixo e vacilei no escuro).