Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

16
Jun15

...

por Vieira do Mar

Tem dias  em que me falta a solidão do nosso silêncio, vá lá a saber porquê. Era um silêncio infeliz mas a tristeza também enche, quando o resto falta. É uma carência que me bate a dias incertos, sem aviso nem razão. Passa sem deixar vestígios, como um ataque de ansiedade no meio do trânsito ou uma dor de barriga antes de um exame de matemática. Aguento-me quieta porque sei o desfecho de ir ao teu encontro, impulsiva, como de costume sem nada para dizer,  só para te ver, que tenho saudades. Não tenho. Estou apenas num daqueles dias em que não aguento sozinha os murmúrios da cidade.

Sâo repentes em que preciso de ver a tua miséria para minorar a minha, relativiza-la, perceber que o teu poço é mais fundo do que o meu, que nem o eco da tua voz cá acima chega. Tomo dois Rivotril, e espero. Escondo a chave do carro para não me apanhar sonâmbula à tua porta, a olhar-te a janela, aberta ou fechada, será que estás, que me vais deixar entrar? Que vou poder escarafunchar na ferida mais um bocadinho? Ou já cicatrizaste? É o mais provável, e é o medo de ver que ganhaste  que me impede na verdade de me meter ao caminho. Rezo sempre para que me ignores e me desprezes, pois estarmos juntos é como dois sem abrigo que têm de se encaixar no mesmo saco cama sebento para sobreviverem à noite fria nas escadas de um prédio fino. Limitam-se a lutar por espaço e vêm no outro o seu próprio desamparo.

Tenho o coração aos pulos como se de repente me apaixonasse, porque sei que neste momento corro perigo. Eu, não tu. Tenho pouco em mim, mas corre-me nas veias força vital e alegria, gente, coisas, poesia, cafés, génio e música; e, se eu deixar, sugas-me esse pouco que tenho, num vórtice de tornado, deixando-me oca, às cabeçadas pela noite da cidade, a aceitar shots de velhos endinheirados de esgar lascivo, dos quais fujo quando finjo ir à casa de banho.

O Sr. Gil, guarda reformado e segurança da minha rua, cuja mulher, porteira do prédio em frente, se põe à janela a ajeitar-lhe o capachinho antes de ele sair para o trabalho,  já sabe, quando me vê chegar bamba, a falhar a fechadura da entrada, que andei a fugir de ti. Trata-me por menina, mas penso que no fundo me acha velha, apesar de ele andar já perto dos setenta. Nessas noites, quando percorro todas as ruas de Lisboa menos a tua, parece que adivinha, abre-me a porta do carro e encaminha-me gentilmente para a entrada do prédio. Depois, fica a olhar para a minha janela, como que para ter a certeza de que o perigo já passou e que as mãos já não me tremem. Em tempos, costumava ver-me a chegar de tua casa de madugrada e era como, se na sua sabedoria transmontana, adivinhasse que vinha seca por dentro, como um graveto morto. Tratava-me com uma gentileza desmesurada para que não me partisse e dizia com ar solene (apesar de me achar velha) menina, tem que se afastar de pessoas que lhe fazem mal, como se me estivesse a ler a sina. Acho que o menina  é de dó, porque não tenho um homem, o que é uma espécie de orfandade, ou então como se fosse uma tia solteira de útero mirrado que passasse os dias a olhar a fotografia gasta  do cabo raso que lhe fizera promessas fecundas no momento em que os pretos lhe rebentaram os miolos no assalto à caserna. A carta ficou a meio e tem nas pontas vestígios de sangue, mas ela ainda a guarda, numa caixinha de música que só cospe uma nota. Eu sou essa tia da carta incompleta, que enlouqueceu porque sabia o que viria a seguir, apesar de não estar escrito.

Sim, a seguir venho eu e, por milagre ou obra do diabo;  encontro a porta verde cá de baixo aberta e subo as escadas estreitas e mal cheirosas até ao primeiro andar, sem tocar para que não me possas deixar na rua. Quando vês quem sou, hesitas, quase que te ouço gritar, mudo; pode ser que abras, pode ser que não. Se abrires, encontro-te invariavelmente nu, calado, despudorado, a cama desfeita, e assim continuas apesar da minha presença, a ver tudo em ti descaído, sem força, desossado. Um dias destes, encontrar-te-ei acompanhado na cama e nessa nudez inválida, quase de certeza, o que não seria de todo embaraçoso. Ou me fazia convidada para um café, apresentando-me gentilmente, ou me despedia sorridente, ou partia-te a casa toda, companhia incluída. Se calhar, fazia as três coisas, não necessariamente por esta ordem. E continuaria a não te querer para nada.

Na próxima sessão de terapia, falarei  sobre os bichos da madeira que corroem o soalho da tua casa velha, que subiam a parede e me percorriam durante a noite, mordendo-me, e fazendo-se notar mais na minha pele do que as tuas mãos geladas.  Que só aqueciam pela manhã quando acordavas teso e te friccionavas violenta e cadentemente, como se à beira de descobrires o fogo na idade da pedra. E eu, na outra ponta da cama, a apreciar-te a eficiência extrema, num rancor resignado, a fumar o décimo cigarro. Afaste-se de quem não presta, menina. Mais dois comprimidos e um uísque puro, e só daqui a três semanas me volto a lembrar dos café au lait com que me obsequiavas ao longo da noite por não me conseguires foder.

vw.jpg(Who´s afraid of Virginia Woolf?)

Autoria e outros dados (tags, etc)

29
Jan15

...

por Vieira do Mar

Apagar e escrever de novo. Mandar a presunção das palavras caras para o raio que as parta; porque não foram escritas com as vísceras de fora, nem com o coração a bombar enquanto sobe pelo esófago com a flexibilidade invetebrada de um polvo. O calculismo de um ataque cirúrgico de palavras cuspidas resulta na vida real, mas é um nado morto na escrita. Quando não existe uma raiva verdadeira, uma devoção honesta, ou a urgência de um desespero, mas apenas um esforço para ocultar a verdade figadal que nos dá vómitos, a que não se ousa sequer pensar. Agora, é olhar para a página em branco e tentar fazer sentido das emoções que, de tão agora sim agora não, impedem qualquer lógica semântica, rematada com a habitual petulância. Tu só me afectas quando me convocas emoções, de preferência negativas. Porque, com as boas, posso eu bem: incorporo-as e esqueço-as assim que se tornam passado, como um bitoque que me vai para as coxas.  As más, iluminam-me por dentro, como um fogo de santelmo, aceso com o lixo que deixaste fora dos contentores para que eu tropeçasse nele. Às vezes, sinto que comemoras os meus fracassos, o que me confunde. Nunca o ódio me foi próximo do amor, como apregoa o ditado,  mas a raiva consegue estar perto do desentendimento que existe no amor. Exaspera-me quando me tentas convencer da tua lógica sentimental, como uma equação  amorosa. Insistes em descrever o que sentes através de algoritmos e raízes quadradas. E eu, que não percebo nada disso, nem com um love for dummies,  ignoro-te a maior parte do tempo, como a previsão meteorológica, porque, tal como contigo, sabê-la não significa que a possamos alterar. Tens uma estranha característica: a de não deixares que a tua dor de mude, embora nem por isso te faça mais forte. Mas estás convencido de que é isso que te  mantém de pé. Talvez exista uma equação para tal paradoxo, um dia explicas-me, quando perceberes que a não és a tua própria solução. Já a minha dor, muda-me várias vezes ao dia, quando decide visitar-me (mesmo que lhe diga que não estou). Eu sou o desconforto do inesperado, o exaspero do aleatório, a maldade acriançada do saiu-me sem pensar. Nunca poderás contar comigo para te fazer feliz, mas, quando deixo as vísceras falar, elas gritam cá dentro que te amo. E agora descalça lá esta bota.

(rites of love and math)

Autoria e outros dados (tags, etc)

14
Dez14

...

por Vieira do Mar

Está-se bem, sem ti. Morno, com a sopa dos velhos. Tanto se me dás como se me deste. Sei-te por perto, não me assome a vontade de cortar o tédio em dois. Trazes sorrisos atordoados e frases feitas, e revelas-te na directa proporção de um capricho súbito ou um pensamento ao calhas. Há então em mim um tremor ligeiro, um rumor volátil, quase só um boato nas bocas do mundo, inconsequente e tardio como um bilhete suicida: um breve espasmo em quem o lê, agora é tarde já não adianta. Sofres do mal de seres pouco, és pescador de corrico, de chumbo leve e de mar sem enchios; rasas-me a superfície a ver se mordo, mas desistes rapidamente, porque me sabes bicho de águas profundas. Às vezes, consegues-me. Quando a tua melancolia se sobrepõe à vontade de teres graça e se desprende na minha direcção, num vislumbre oblíquo. Tem dias em que me assentas razoavelmente bem, como um cachecol num dia frio e eu saio de casa de gola alta: um acessório que aconchega sem ser preciso. Está-se bem, sem ti. Mas, pelo sim pelo não, vai ficando. Deixa-me saber do tempo para amanhã e sondar os soluços da Terra, que eu nunca me fio na brandura dos elementos. 

(belle de jour)

Autoria e outros dados (tags, etc)

28
Fev14

...

por Vieira do Mar

Falas-me num linguajar distante e eu aceno, fingindo perceber o ininteligível. Argumentas seguro e a direito, como tu mesmo: uma linha reta, com um propósito teimoso e autista, que une um ponto a outro sem passar por lado nenhum, sem passar por mim. E eu, aos ziguezagues,  aos recuos e avanços, ao arrepio e em investidas, consoante o tempo ou o tom com que o rui da tabacaria me deu os bons dias, de acordo com o alinhamento dos astros, o dia do mês ou a folhagem das árvores. Eu, a apanhar bonés, à toa e à deriva, no inverso do teu verso, GPS avariado, aguardando instruções, de entrada ou de saída. Guardo as palavras com que não te respondo porque não as quero desbastar em vão, contra essa parede que és tu, atordoada de incompreensão. Não falas a minha língua, e eu que nunca aprendi outra e agora já sou burro velho. Suplicas-me com esse teu olhar aguado, como um paralítico amarrado a uma cama, se piscas um olho é sim, se o fechas é não, e nem mesmo assim te decifro, perdida com tanto bater de pestana. Ris-te de coisas que me são estranhas, algumas que até me repugnam, de tão pueris ou medíocres,  e não me achas piada, o que me enfurece mais do que se fosses com outra, ou  do que se me roubasses o anel barato de zircões baços que a minha avó me deixou. É uma raiva que cresce como um urso que se põe em pé,  que se levanta na tua direcção, desembainhada, feroz, apontada ao teu coração desprevenido. Não to admito. Não admito que me fales ardentemente, com a convicção desesperada de uma mulher neurótica, para que eu nada perceba, para que sejas ruído de fundo, música de elevador, a estática enervante de um rádio mal sintonizado. Não te admito que não gargalhes quando sou maravilhosamente  hilariante, que não me sejas cúmplice quando sou irónica ou maldosa, e que me obrigues às tuas patéticas investidas. Não me obrigas a nada, dirás. Mas basta quereres para eu me sentir obrigada, porque um amor puro como o teu tem muita força numa alma penada como a minha, que só desama e descarta, despeitada por não o sentir assim, na pele morta que já não se arrepia. Deve ser tão bom!, esse querer bem, esse propósito de fazer feliz, desinteressado e simples, deve ser tão bom o amar. Por inveja, obrigo-me a ouvir-te e a tentar fazer-me perceber, colada a ti a respirar o mesmo ar,  à espera que o teu amor se me pegue como um virus. Devo ser imune porque, quando falas e falas e falas,  e me apontas os olhos aguados de esforço, só o silêncio me invade, como o de uma igreja vazia onde dormem os ecos dos santos.

(Dodsworth)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

05
Nov13

...

por Vieira do Mar

Foste-me leve e fácil, sempre e só preliminares. Nunca passaste do meio termo, da fugacidade matinal, da visita tardia de médico. Vinhas anunciado, com urgência de entrar e pressa de sair, tic tac tic tac. O fato ainda vincado ou já amarrotado, o alívio momentâneo do dia de trabalho, poucas palavras, umas queixas, beijos, o resto, e já estava. É tão bom não foi. Bonito, sempre, mesmo com a barriga a fugir ao cinto de marca, a camisa branca de funcionário a horas, os óculos a postos, a preocupação adulta na cara de miúdo, a bochecha a pedir beijos de consolo. E eu, despreocupada e alheia, cerveja fresca, descontrai, o alívio da tarde antes do porvir da noite, nunca te pedi que ficasses, nem mais um bocadinho, uns segundos apenas. Era assim, e chegava-nos. A palavra amor repetida no orgasmo, o léxico enganado pelo gozo rápido, nada de mais. Depois, semanas sem uma palavra, eu a meter-me contigo, tu a perceberes tudo mal, ela quer mais de mim, mas não era nada disso. Era eu a dizer-te que sabia, sabia da tua aridez e indiferença, do teu amor de segundos, e a mostrar-te que não servias para lágrimas, apenas para a redonda ironia de quem realmente não se importa. Era eu a imprimir-te a distância, a sufragá-la, menos é mais, a rir-me da tua ilusão de achares que eras preciso. Tudo em ti é inofensivo, és o contrário do abismo, do perigo, da adrenalina da traição; és a hora certa e eu, mais uns minutos que roubas generosamente à tua vida, tic tac tic tac,  como uma reunião ou um jogo de futebol. Nunca foste histeria nem o reboliço da espera, borboletas na barriga ou antecipação húmida do toque. Nem eu. Fomos pausas e intervalos, suspensão e brevidade. A ausência de tudo o que mata e faz mal fez com que durássemos tanto. Isso, e as inúmeras vezes que te disse não. Foste-me leve e fácil, sempre e só preliminares, como a cerveja que bebias antes de me enfiares a língua, tic tac tic tac, e o relógio começar a contar.

 

(one hour with you)

Autoria e outros dados (tags, etc)

02
Set13

...

por Vieira do Mar

to keep the fire burning

 

https://www.facebook.com/sofiavieiraworkinprogress?ref=hl

Autoria e outros dados (tags, etc)

09
Jul13

...

por Vieira do Mar

Tantos anos, e o que nos resta?, senão esta intimidade de mucos e fluidos, de cócegas no lugar da tesão, e este riso dissonante em vez da adrenalina bruta da paixão?  Que nos resta?, senão as noites no computador, as costas dadas ao outro, colmatadas com pequenos cuidados, o que queres comer, o que eu quero beber, que fazer amanhã? Que nos resta?, senão o silêncio no carro, os carinhos esquivos que entremeiam o sexo, repetido e inócuo, as escolhas do dia, a rotina que nos sustenta, hoje passeio o cão e tu, despejas o lixo,  eu ao supermercado e tu, compras cigarros? Senão um aperto cá dentro que nos abafa a pele, esta falta de ar indizível, o conforto morno das coisas conhecidas, a mansidão da carne apaziguada no previsível, porque nada vai mudar nunca, tu e eu seguros, seguro de vida, seguros para a vida? Que nos resta?, senão  ceias de tabuleiro em frente à tevê, palavras sem surpresa na linha derradeira do tempo, a conta que temos em comum, a loiça por lavar, a roupa por pendurar, as despesas por pagar, um copo a mais a horas mortas, quando já estás a dormir? Para onde foi?, aquela monção dilúvio, o frémito, a tontura, o sobressalto antes da queda, a voragem indecente dos corpos a pique, o cheiro a verão que antecipávamos no outro? Para onde fomos quando nos fugimos?

 

 (the last time I saw paris)

Autoria e outros dados (tags, etc)

28
Mai13

...

por Vieira do Mar

Vejo-te de outra maneira, mudaste de cor e de aura. Não sei em que momento os meus olhos sorriram gulosos para o teu rabo e para o teu peito ravina ou quando, simplesmente, convergiram para os teus, indiferentes à diferença que vi em ti. Nem imagino, de onde surgiu a tua pele de repente tocável, como um instrumento de veludo ou um  animal macio e irresistível, que apetece cobrir de abraços e estrafegos, dos quais se debate porque estranho ao excesso do afago humano. Nem calculo, quando dei por mim a cheirar dissimulada o teu cabelo solto e escuro de breu, a passar por mim num esvoaço, desatento e desprevenido, como se eu inofensiva. Não faço ideia, sequer, de quando deixei de ver a tua boca, que fala  e bebe  sem cerimónia,  como o sítio de onde quero beber, enquanto tu calada, solenemente sôfrega, ligeiramente espantada. De quando a conversa passou a escuta e o riso passou a canção; as gargalhadas, a sinfonia; os passos, a compassos; e os teus dedos compridos,  a solilóquios de inteligência, que escondes, enrolados em si mesmos, quando não estás a fumar. Nem de onde vem esta saudade que o tempo não justifica, mais de corpo que de companhia;  e, muito menos, este ciúme simplório das tuas outras mulheres, que nem ganância é de te de ter só para mim, pois tal coisa não a sei.  Sou novata,  uma caloira na tua escola, com medo da praxe que me espera. Intuo em ti o conhecimento antigo das amazonas, uma linhagem real de mulheres que borbulham de sangue azul, que é a mais quente das cores. Vejo-te resultado de gerações cumpridas e batalhas ganhas. Vejo-te dor e esforço,  segredos e paradoxos, aventura e abandono.  Ou  então, apenas te imagino,  e tudo isto não passa de curiosidade pelo que de ti ignoro, ou por cheiros que não conheço  e geometrias que não explorei (pretendo poupar-te ao embaraço de saberes que te quero, por isso recorro ao lugar mais comum). A verdade é que não sei, de todo, em que exacto momento cada parte maiúscula de ti se transformou num pormenor esmiuçado por mim.

 

(blue is the warmest colour)

Autoria e outros dados (tags, etc)

12
Fev13

...

por Vieira do Mar

Há momentos assim, de guarda baixa, nos quais a imprudência explode em duas línguas que se enrolam em público, quando todos à volta se desvanecem em pó, como múmias remexidas sem cuidado. Há momentos assim, em que se fazem promessas falsas mas que de tão pungentes são por um segundo verdadeiras, em que morrem os sorrisos de circunstância e as palavras banais ficam presas na garganta, porque as cobras enrodilhadas nas bocas não as deixam sair, ameaçadoras como víboras. Há beijos de cinema mas de verdade, iguais ao daquele grande plano no final, que nos ilude com a expectativa de felicidade eterna, antes de nos levantarmos da cadeira e seguirmos as luzes no chão que nos indicam a saída para a vida, ignorando os créditos finais. Um beijo perfeito, às vezes seguido de outro, mas, antes, inspirar e olhos nos olhos, tentar parar, racionalizar o prazer, subestimar o momento, tentá-lo risível, fortuito, embaraçoso. E num ápice, porque nada resulta, as mãos atrevem-se mais que o beijo, o corpo acorda num esplendor acelerado e a alma adormece, inerte e sem sonhos, isenta de culpa. Não há antes nem depois numa fusão de tal calibre. A técnica exige-se perfeita, um beijo assim é uma forma subtil de sexo, de tão obsceno na sua ostentação pública, e não é para todos. São precisos dois dotados para a perfeição do amor instantâneo, para criar aquele instante que suga a realidade no seu vortex para no dia seguinte ser só mais uma letra na caligrafia dos dias. Sussurram-se palavras cortadas, quando se vem à tona inspirar e as bocas se separam, para sustentar a magia, presa por um fio de saliva, porque vai não vai e somos de novo abóboras com alma, gordas e inchadas com a súbita consciência dos outros, os níveis de oxigénio repostos, noções espacio-temporais, relógios no pulso e chaves no bolso, a caminho de casa, no embalo morno da domesticidade confortável.

 

(Human Desire)

Autoria e outros dados (tags, etc)

07
Dez12

(post reeencontrado)

por Vieira do Mar

 

Olá tenho saudades. Hoje lembrei-me de ti, não tenho feito outra coisa não imagino porquê. Que tal almoçarmos agora um dia destes? Apetece-me corromper-te com beijos conversar contigo. Lanchar, se te der mais jeito e desvirginar o teu silêncio com a minha língua ouvir-te falar. Preciso de saber que ainda me queres o que tens andado a ler. Já nem sei o que te costumava dizer, mas ainda soletro de cor as palavras com que me vestiste que não seja por isso: o exercício do amor da amizade é como andar de bicicleta, nunca nos esquecemos. Sei que tens muito trabalho quero lá saber e que mal te lembras de mim atreve-te a esquecer-me. Mas, para um amor amigo, arranjamos sempre um bocadinho. Uma vida hora, é só o que te peço. Naquele hotel da baixa, o que tem o quarto a esplanada de frente para o rio, lembras-te? Em não podendo ser, morro deixa estar. Talvez para a próxima reencarnação. Fica mal e apodrece sem mim bem. Um beijinho à estúpida da tua mulher e outro aos teus fedelhos ranhosos miúdos. O meu paciente marido manda-te à merda cumprimentos e pergunta quando sais de vez da nossa cama aparecem. A ver se combinamos um churrasco de domingo com todos eles de preferência noutra mesa. Até jà Adeus.

 

(September)

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Um blogue de Sofia Vieira

Reservad@s todos os Direitos de Autor. O conteúdo deste blogue encontra-se registado no IGAC, sendo proibida a sua reprodução sem autorização e/ou menção da proveniência e autoria.



Favoritos



"Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento" Adélia Prado